5. GERAL 19.6.13

1. GENTE
2. RELIGIO  FRANCISCO E A AMEA GAY
3. TECNOLOGIA  PEQUENO E MUITO VELOZ
4. ESPECIAL  A RAZO DE TANTA FRIA
5. GUSTAVO IOSCHPE  AFINAL, A VERDADE EXISTE?
6. SOCIEDADE  EU QUERO SER BOBԔ
7. SADE  A LUTA CONTINUA
8. PATRIMNIO  AT PARECE MILAGRE

1. GENTE
MARLIA LEONI. Com Thais Botelho

BOTAS DOURADAS, NO PENDURADAS
Entre a religio e a carreira, a cantora JOELMA muito sabiamente decidiu ficar com ambas. Nome principal da banda paraense Calypso, ela surpreendeu at o marido, CHIMBINHA, nome artstico de Cledivan de Almeida Farias, ao declarar que, depois de catorze anos de estrada e CDs vendidos, se dedicaria apenas  msica gospel. Convertida  Assembleia de Deus em 2009, a cantora  uma evanglica  brasileira, o que lhe permite extravagncias como mais dourados. J voltar atrs numa deciso  prerrogativa das divas.

NENHUM TERRITRIO DESOCUPADO
A risadinha sinistra, a fatal levantada de sobrancelhas e as flechadas verbais do Flix de MATEUS SOLANO agora no ficam da porta para fora da casa que ele divide com a mulher, PAULA BRAUN. Desde a semana passada, ela entrou no ar com sua participao na novela Amor  Vida, como Rebeca, mdica judia que se apaixona por um colega palestino. "At achei que ficaramos mais juntos, mas no est acontecendo", diz Solano, cujo personagem pertence  famlia libanesa dona do hospital onde exerce seus j notrios maquiavelismos. Na vida real, ele foi criado na religio judaica da me, Paula  catlica de origem alem e Mouhamed Harlbuch, que interpreta o mdico da pesada, descende de muulmanos srios.

VAI UM CHUMAO?
Primeiro, uma jornalista de moda da Austrlia mencionou um impensvel recurso de jovens modelos para colocar alguma coisa no estmago e manter o peso mnimo: ingerir lenos de papel. Agora, a modelo em construo BRIA MURPHY veio com outra revelao similar, a do uso, por "ouvir dizer", de chumaos de algodo embebidos em suco de laranja. "Do a sensao de saciedade", disse Bria, ela mesma aparentemente alimentada a fiapos de nuvem. Melhor nem imaginar as piadas que o desbocado comediante Eddie Murphy, pai de Bria (e de mais sete filhos, incluindo a menininha no reconhecida com a cantora Melanie Brown), faria com uma histria dessas.

GRANDE ATRIZ
Que bons papis existem para uma atriz de 1,90 metro de altura como a inglesa GWENDOLINE CHRISTIE? S um: o da gigantesca, desajeitada e bem-intencionada Brienne, a nobre guerreira da srie Game of Thrones. Brienne  uma das representantes da diversidade de personagens entre os quais se incluem um ano devasso e decente, um pequeno lorde paraplgico, um rei e vrios cavaleiros gays, um adorvel obeso, e por a vai. Como a terceira temporada da srie j acabou, d para revelar sem estragar a surpresa que o urso com o qual Gwendoline trava um desequilibrado combate era de verdade, a atriz de fato contracenou com o bicho e foi a nica vez em que pareceu pequenininha em cena.

A VIRADA ESCULTURAL
Quando trabalhava como fisioterapeuta, a catarinense MICHELLE FRANZONI chegou a pesar 100 quilos, nada prprios para sua profisso. No havia lipo que desse jeito. Hoje, com 35 anos, doutorada em tecnologia da informao, ela conta os gomos da barriga tanquinho e os ingressos gerados pelo blog sobre alimentao saudvel e exerccios do qual seu prprio e esculpido corpo, com 33 quilos a menos,  o melhor meio de divulgao. Michelle atrai 25 milhes de leitores por ms, ganha com anncios no blog e d palestras, pelas quais cobra entre 7000 e 10.000 reais. "Dedico o dia inteiro ao blog. Para cada texto, eu pesquiso como se fosse para um artigo cientfico", orgulha-se.


2. RELIGIO  FRANCISCO E A AMEA GAY
Um grupo de clrigos homossexuais instalado no Vaticano age  revelia da Igreja Catlica, movido por interesses e chantagens. Agora  o prprio papa quem diz.
MRIO SABINO, DE PARIS

     O papa que veio do fim do mundo confirmou a uma comitiva proveniente do fim do mundo um fato que  o fim do mundo. No ltimo dia 6, em audincia  cpula da Confederao Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (Clar), Francisco comentou a existncia de um lobby gay na Cria Romana, o aparato governamental da Igreja Catlica. Disse o papa, segundo o divulgado: "Na Cria, existe gente santa, santa de verdade. Mas h tambm uma corrente de corrupo. Fala-se de um lobby gay, e  verdade, existe... Precisamos ver o que se pode fazer a esse respeito". No dia 20 de maio, Francisco tambm havia mencionado o problema a bispos sicilianos. Mas foi a conversa com os integrantes da Clar que vazou estrondosamente para fora dos muros do Vaticano  atravs de um site catlico chileno repercutido pela imprensa italiana. Pandemnio instaurado, o porta-voz da Santa S limitou-se a afirmar que no comentaria frases pronunciadas numa audincia privada. Quanto  Clar, a batina ficou ainda mais justa depois que a presidncia da confederao emitiu uma nota em que afirma que "no se podem atribuir ao santo padre, com segurana, as expresses singulares publicadas, a no ser o seu sentido geral". Ou seja, Francisco soltou, sim, o verbo. E, como est longe de ser homem de meias palavras, o sentido geral no deve ter se descolado tanto assim do substantivo "lobby" seguido do adjetivo "gay".  
     No  novidade a presena macia de homossexuais no clero, como sabe qualquer coroinha. Praticamente todos os escndalos de pedofilia dentro da Igreja envolvem padres abusadores de meninos. O que ningum falava abertamente, muito menos um pontfice,  que havia uma rede de favorecimentos instalada no corao da instituio, cujo denominador comum era a sexualidade  da qual o exerccio  proibido tanto pela imposio do celibato como, no caso especfico da preferncia, por ser considerado pelos preceitos catlicos um pecado contra a natureza. Em 1999, por exemplo, quando monsenhor Luigi Marinelli publicou histrias picantes protagonizadas por eminncias, no livro Via col Vento in Vaticano (algo como Ao Sabor do Vento no Vaticano), as cpias foram sequestradas. Tudo mudou, e atingiu um grau muito alm do anedotrio depois do Vatilieaks, em 2012, o roubo de documentos sobre esquemas de corrupo no interior e nas adjacncias da Cria. Os trs cardeais encarregados por Bento XVI de realizar uma investigao a respeito do assunto lhe entregaram um relatrio que descrevia sujeiras ainda mais grossas do que as apontadas nos papis surrupiados. Diante do exposto, sem capacidade fsica para empreender uma faxina, mas com fora moral para dar um choque em seus pares, Bento XVI deixou o Trono de Pedro. 
     Em parte do relatrio, est descrita justamente a ao de um lobby gay, que promovia "iniciados" a cargos relevantes na hierarquia curial e os protegia das intempries, inclusive as relacionadas aos escndalos de pedofilia. A investigao do trio cardinalcio tambm mostra como esse pessoal passara a ser alvo de chantagens de gente interessada em extrair benefcios financeiros da tumultuada contabilidade do Vaticano. Papa Francisco leu o calhamao, atestou que era explosivo  e, agora, prepara uma reforma na estrutura da Cria, capaz de evitar a formao de qualquer tipo de lobby. "Eu no posso, pessoalmente. fazer essa reforma, porque sou desorganizado", disse ele aos religiosos da Clar. A tarefa ser confiada, a partir de outubro, a um grupo de oito cardeais, apelidado em Roma de "Conselho da Coroa". 
     O papa de hbitos e alma simples , por consequncia e clculo, mais direto na fala do que os antecessores. Um livro recm-lanado na Itlia, De Bento a Francisco, do padre Antonio Spadaro, diretor da revista Civilt Cattolica, analisa o seu estilo. A concluso  que Francisco gosta de frases curtas, intensas e, em relao a temas intrincados, costuma resumir o pensamento em trs pontos,  maneira do fundador da ordem jesuta, Santo Incio de Loyola. Essa tcnica no s torna tudo mais digervel aos ouvintes, como facilita a veiculao pela internet, em especial o Twitter. A expresso "lobby gay", portanto, casa-se  perfeio com o jeito  e os propsitos  do comunicador Francisco. O papa que veio do fim do mundo, mas logo se colocou no centro das atenes planetrias. 


3. TECNOLOGIA  PEQUENO E MUITO VELOZ
A Apple apresenta a nova verso do Mac Pro, o computador amado pelos designers grficos que h sete anos era praticamente o mesmo.

     Na conferncia anual em que exibe suas novidades a desenvolvedores  a WWDC, no incio da semana passada, em So Francisco , a Apple deu nfase ao novo sistema operacional para iPhones e iPads, o IOS 7. A stima verso representa uma considervel mudana em relao s anteriores, principalmente pelo design limpo e pela interface multitarefa, e agradou  plateia. Mas, contrariando as expectativas da empresa, os holofotes foram atrados por outro lanamento, sem relao com smartphones e tablets  o Mac Pro. Esse  um computador projetado para o uso pesado dos profissionais de design, cientistas da computao, desenvolvedores de software, produtores de vdeo e quem mais precise de uma mquina superpotente. No havia mudanas relevantes nele desde 2006, e muitos especialistas na rea digital chegaram a pensar que a Apple desistiria do produto. Para a legio de usurios fiis do Mac, a espera valeu a pena. 
     O primeiro impacto  visual. O novo Mac Pro  o primeiro computador de alta performance a adotar estrutura cilndrica. A cor, em tom conhecido como sleek black (preto lustroso),  inesperada. Apesar de comum em produtos de tecnologia, tinha at agora sido evitada pela Apple, que prefere os tons claros. A mquina  elegante e chama ateno pelo pequeno tamanho. Com 16,7 centmetros de dimetro, ocupa o espao de uma cafeteira. Como comparao, seu tamanho equivale a 10% do volume do modelo antigo. Ainda h mistrio sobre vrios aspectos do Mac Pro, que s sero revelados quando ele chegar s lojas. O peso, por exemplo, a Apple no divulga. Quem teve a oportunidade de segur-lo garante que  leve o suficiente para ser levantado com uma s mo. Torres de computadores de alta performance podem pesar 20 quilos e so um trambolho quando precisam ser carregadas. 
     O que permite a montagem da mquina poderosa em embalagem diminuta  o revolucionrio sistema de resfriamento. Processadores e placas de vdeo de altssimo desempenho produzem muito calor, o que pode causar panes. O Mac Pro  construdo em torno de um tnel interno de formato triangular, dotado de uma s hlice que suga o ar frio do fundo e faz com que percorra a estrutura de alumnio, ajudando a estabilizar a temperatura. 
     O Mac Pro  fabricado nos Estados Unidos  novidade para a Apple, cuja produo  quase toda na sia  e chega s lojas no fim do ano. No se sabe o preo, que deve girar em torno de 4000 dlares. A mquina j est sendo testada por profissionais de alto calibre, convidados pela Apple, e foi usada no desenvolvimento da ltima animao da Pixar, Universidade Monstros. Para manter o sigilo, o Mac Pr permaneceu todo o tempo escondido dentro de uma enorme caixa metlica. Quem j experimentou atestou:  um computador sem igual. 

 o menor computador de alta performance  pode ser carregado com uma s mo.
Com o poder combinado de duas placas de vdeo e chips de ltima gerao, atinge 7 teraflops de capacidade de processamento, o que equivale  capacidade somada de 700 PCs.
Transfere dados a 60 gigabytes por segundo, o que significa enviar para armazenamento em disco rgido ou para outro computador 100.000 livros digitais ou 60 horas de vdeo em alta resoluo por segundo.

FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO


4. ESPECIAL  A RAZO DE TANTA FRIA
Os jovens j marcharam pela paz, democracia e liberdade. Os de agora vo s ruas para baixar o preo das passagens. Mas isso  tudo?
BELA MEGALE E CAROLINA RANGEL

     Para fabricar um incndio bastam uma fagulha e um pouco de oxignio. No caso da srie de manifestaes iniciadas em So Paulo e no Rio, a fasca foi o aumento da passagem de nibus. J o combustvel era composto de bem mais do que um elemento. Na semana passada, essa combinao produziu labaredas de alturas inditas. A passeata de quinta-feira em So Paulo terminou com mais de 230 detidos, o maior nmero de presos em confronto com a polcia desde a ditadura militar. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, incluindo dezenas que nada tinham a ver com a manifestao e que foram atingidas por lascas de bombas de gs lacrimogneo ou balas de borracha disparadas pela Polcia Militar. 
     H uma grande chance de que boa parte da rapaziada que, na semana passada, foi s ruas esteja apenas dando vazo s presses hormonais pelo exerccio passageiro do socialismo revolucionrio. Afinal, como disse o ingls Winston Churchill, "se voc no  um liberal aos 20 anos no tem corao, e se no se torna um conservador aos 40 voc no tem crebro". As minorias que participaram ativamente do quebra-quebra so os suspeitos de sempre: militantes de partidos de extrema esquerda (PSTU, PSOL, PCO e PCdoB), militantes radicais de partidos de centro-esquerda (PT e PMDB), punks e desocupados de outras denominaes tribais urbanas, sempre dispostos a driblar o tdio burgus aderindo a algum protesto violento. 
     Foi a quarta de uma srie de manifestaes organizadas por um grupo nanico criado por estudantes de So Paulo sob inspirao de um movimento nascido em Florianpolis. O Movimento Passe Livre (MPL) defende a estatizao das empresas de transporte e a gratuidade das passagens. Em So Paulo, ele no tem sede, nem chega a reunir uma centena de integrantes. Vangloria-se tambm de no ter lderes. Tem, claro, mas prefere cham-los de "porta-vozes". O perfil deles  bastante semelhante. Como o porta-voz Marcelo Hotimsky, de 19 anos, muitos so egressos do Colgio Santa Cruz, um dos mais tradicionais da elite paulistana, ou do Equipe, outra escola frequentada por filhos de profissionais liberais. Atualmente, a maior parte estuda na USP nos cursos de fsica, cincias sociais, histria e direito  caso  de outra porta-voz, Nina Cappello, de 23 anos. 
     Mas essa minoria interessa pouco. Ela sempre ser minoria, por definio  ou algum acha vivel um pas em que a maioria dos cidados quebra tudo a sua volta, dia sim, dia no? O fenmeno realmente espantoso ocorrido na semana passada no Brasil foi o fato de s minorias terem se juntado milhares de rapazes e moas que tinham tudo para estar no cinema, no shopping ou na balada, e no engrossando as fileiras das minorias de vndalos profissionais. A tentao maior  rotul-los de rebeldes sem causa, bem ao estilo do personagem da msica dos anos 80 do grupo Ultraje a Rigor, aquel garoto que os pais "tratam muito bem" e que recebe deles "apoio moral" e "dinheiro para "gastar com a mulherada". A reao do garoto? "No vai dar, assim no vai dar / Como  que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar / No vai dar, assim no vai dar / Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar". Poderia ser esse o hino dos atuais insurgentes. 
     Os insufladores do movimento usam as redes sociais para organizar os protestos. O grupo tambm arregimenta simpatizantes nos grmios estudantis dos colgios onde seus integrantes estudaram. Foram os militantes do MPL ligados a partidos que organizaram os dois primeiros protestos em So Paulo, que no chegaram a reunir 2000 pessoas. Informaes dos servios de inteligncia da polcia paulista relatam o que houve em seguida. Para engrossarem o movimento, alas radicais dos partidos arregimentaram integrantes de grupos punk  alguns deles j conhecidos nos servios de inteligncia por ter se envolvido em episdios de agresso a minorias. Desse subgrupo, formado por radicais polticos e punks, partiu a maior parte das aes de depredao na Avenida Paulista durante a terceira manifestao, segundo informaes da polcia. No protesto seguinte, o de quinta-feira, o grupo radical estava diludo entre as cerca de 5000 pessoas presentes. "Esse movimento cresceu como hospedeiro de interesses polticos e se tornou um vetor de violncia", disse um agente de inteligncia da Secretaria de Segurana Pblica de So Paulo. Nesta semana, esto marcados novos protestos em pelo menos nove cidades. 
     O movimento iniciado pelo MPL guarda algumas semelhanas com o Occupy Wall Street, a invaso e ocupao, por manifestantes, do centro financeiro de Nova York durante dois meses. A exemplo do movimento americano, ele no foi espontneo, mas planejado por um grupo de ativistas. Tambm como o primeiro, reuniu sobretudo pessoas com situao financeira estvel e que no enfrentam nenhum problema urgente. O estudo "Mudando o assunto: um relato de baixo para cima do Occupy Wall Street em Nova York", conduzido pela Universidade da Cidade de Nova York, mostrou que 36% dos ativistas tinham rendimento familiar superior a 100.000 dlares por ano e 64% eram brancos. Por fim, da mesma forma que ocorreu nos Estados Unidos, a causa original dos protestos foi se metamorfoseando e se multiplicando ao longo das manifestaes, graas em grande parte ao caldo de cultura em que esto inseridos formado por uma democracia e uma economia em boa forma. Viver sob uma democracia significa que as balas dos fuzis da polcia sero de borracha. A economia beirando o pleno emprego faz dos manifestantes jovens caados nas universidades por empresas em busca de mo de obra qualificada. 
     Em So Paulo, os cartazes dos manifestantes na quinta-feira j incluam, alm do tema das tarifas de nibus, palavras de ordem contra a represso policial e a corrupo poltica. Uma mensagem fartamente compartilhada nas redes sociais na sexta-feira dizia: "A luta no  por 20 centavos.  por direitos". A frase terminava assim mesmo, incompleta. (Leia ao longo da reportagem exemplos de mensagens postadas no Twitter.) No que a briga pela reduo das tarifas de nibus no faa sentido. Segundo o IBGE, o peso mdio do transporte pblico no oramento mensal dos paulistanos  de 5%  muita coisa se comparado ao que ocorre em Nova York, por exemplo, em que esse custo equivale a apenas 2%, ou Londres, que, com um dos transportes pblicos mais caros do mundo, tem um impacto de 3% no rendimento mdio dos trabalhadores. Como ficou claro nos ltimos dias, contudo, boa parte dos manifestantes no  usuria de nibus. 
     Por que direitos eles lutam e vociferam, ento? 
     A histria recente mostra que, mesmo quando nem eles prprios sabem contra o que exatamente se rebelam, os jovens, quando vo s ruas protestar, precisam ser ouvidos. Nesses momentos deve-se aplicar o princpio bsico da medicina chinesa para cujos praticantes "a queixa  a prpria doena". E qual seria a doena brasileira que se manifesta atravs dos jovens nas ruas? So vrias molstias. A principal  a ausncia de partidos e programas que empolguem legitimamente os jovens. Isso lhes daria a saudvel noo de que o mundo nunca  perfeito, mas vale a pena tentar consertar alguma coisa pela prtica poltica e pelo voto. "Em todo o mundo parece haver um conflito entre a juventude e a poltica. Os jovens no se sentem representados pelos partidos e querem respostas rpidas s suas novas demandas", disse a VEJA Jordi Tejel Gorgas, historiador e socilogo do Instituto Graduate, de Genebra, que acompanha as manifestaes atuais na Turquia (veja a reportagem na pg. 74). Associada a essa sensao h uma armadilha inescapvel. As autoridades percebem que, se no agirem com vigor, podero perder o controle da situao. Isso gera o risco de que a prpria represso inflame ainda mais os movimentos de rua. "Em alguns pases, isso pode ser agravado pela relao conflituosa j existente entre a polcia e a sociedade. Se a polcia  vista como uma instituio corrupta, que abusa da fora, como no Egito, as pessoas vo revidar quando tiverem a oportunidade", diz Gorgas. Esse  o grande perigo em uma democracia. A degenerao de protestos legtimos e da represso policial necessria em batalhas campais produziria um desastroso confronto em que todos sairiam perdendo. 

UMA QUESTO "MAIS PROFUNDA"
Aluna de design da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Valkyria Anondottir, de 21 anos,  veterana em manifestaes. J foi s ruas pela sada de Renan Calheiros do Senado e a duas marchas contra a corrupo. Chegou  passeata de quinta-feira no Rio preparada para a guerra. Alm de cobrir o rosto com culos de motoqueiro, tinha kit de primeiros socorros e um escudo feito de isopor e papelo para conter balas de borracha: "A questo  bem mais profunda do que um mero aumento de passagem. O povo est cansado de conchavos entre governantes e empresas privadas"

CONTRA A BADERNA
Estudantes de direito das Faculdades Metropolitanas Unidas, em So Paulo, Vander Santana e Gabriel Ribeiro, de 20 e 22 anos, foram s ruas defender a reduo do preo da passagem de nibus, mas se revoltaram com o vandalismo de parte dos manifestantes. "As atitudes desses anarquistas que quebram coisas desvirtuam o objetivo da passeata, que  a reduo da tarifa", argumenta Gabriel. "Esses baderneiros no representam a maioria do movimento." Os amigos tinham o rosto coberto por lenos para reduzir os efeitos do gs lacrimognio arremessado pela polcia.

"A CAUSA E DE TODOS"
A estudante Mariana Spinola, de 19 anos, foi a todas as passeatas contra o aumento da passagem de nibus, sempre acompanhada de amigos. Ela no faz parte de nenhum movimento poltico organizado, mas protesta para tentar reduzir o efeito da passagem mais cara nas contas dos pais, que bancam seus estudos. Usuria de transporte pblico, todos os dias ela sa do Butant (Zona Oeste), onde mora com a famlia, rumo  regio da Avenida Paulista, onde fica o cursinho pr-vestibular em que estuda. Tenho tentado arranjar mais carona, para ter menos impacto nas contas de casa", afirma a estudante. Para ela, a passeata da ltima quinta-feira foi a mais importante. "A populao est participando cada vez mais porque entendeu que a causa  de todos, no s de quem usa nibus", disse.

PELOS AMIGOS
Marilia Thomazzi, de 29 anos, estaria mais  vontade em uma passeata contra o aumento do preo da gasolina. "Uso carro diariamente pela rapidez de locomoo, j que trabalho como corretora de imveis e preciso ir de apartamento a apartamento", afirma. Transporte pblico, ela s utiliza eventualmente, trs ou quatro vezes por ms, geralmente nos dias de rodzio. Marilia diz no ter um partido poltico de sua preferncia e nunca participou de movimentos populares. Sua renda de 5000 reais mensais no ser prejudicada com esse aumento. Mesmo assim, ela foi ao Teatro Municipal de So Paulo na quinta-feira passada protestar, atendendo a um convite de amigos que j estavam l.

FORA DA PALAVRA
Cartazes com frases atacando a polcia e polticos de todos os partidos foram uma das marcas dos protestos. Sobrou para os ocupantes dos trs nveis de poder: no fim da semana, o prefeito de So Paulo, Fernando Haddad, o governador paulista, Geraldo Alckmin, e a presidente Dilma Rousseff contabilizavam os prejuzos e tentavam reduzir os efeitos eleitorais.

Protesto pelo o direito de protestar. A que ponto chegamos na maior cidade da Amrica Latina.

So Paulo:
Sai do facebook e vem p/ rua.
Haddad o vndalo  VC! juntos.org.br
Governo facista

Rio de Janeiro
 fardato voc tambm  explorado
+ MED
Contra o aumento

A tarifa virou a menor das questes agora. Os prximos protestos precisam ser, antes de tudo, pela liberdade de protestar."

Porto Alegre
Porto Alegre j parou
O Brasil vai parar, lute! Passe livre

RASTRO DE FOGO
As manifestaes que comearam em So Paulo se espalharam nos dias seguintes por quatro estados. Em comum, tiveram enfrentamentos com a polcia e exibies de uma fria difusa da parte dos manifestantes.

"Em SP e assim. As manifestaes comearam contra o aumento da tarifa do nibus, mas o foco da prxima ser contra a represso, certamente."

O MUNDO EM REVOLTA
Nos ltimos anos, grandes manifestaes tomaram as ruas de cidades ao redor do planeta.

A batalha de Seattle
Em 30 de novembro de 1999, milhares de manifestantes tomaram as ruas de Seattle, onde acontecia a reunio da Organizao Mundial do Comrcio (OMC), para protestar contra a globalizao, parando a cidade e depredando estabelecimentos comerciais. 
O que eles queriam 
Seattle reuniu manifestantes com as mais diversas causas: movimentos sociais contra o avano das polticas neoliberais e a m distribuio de renda; ambientalistas contra a degradao ambiental; sindicalistas a favor dos direitos trabalhistas; anarquistas contra o capitalismo global 
Quem eram 
Sindicatos, estudantes, anarquistas e ONGs de defesa do meio ambiente, dos direitos trabalhistas e do consumidor 
Palavra de ordem 
"Stop exploiting workers" (Parem de explorar os trabalhadores)

DAVOS E A GLOBALIZAO
Nos anos 2000, inspirados nos protestos de Seattle, organizaes sociais e grupos polticos decidiram boicotar o Frum Econmico Mundial, em Davos, na Sua. A cidade chegou a ser tomada por milhares de manifestantes que vandalizaram uma loja do McDonalds e acenderam fogueiras pelas ruas.
O que eles queriam
Protestar contra a formao dos blocos econmicos internacionais, as medidas de
austeridade econmica e as polticas prejudiciais ao meio ambiente. Pleiteavam a manuteno de direitos trabalhistas e polticas previdencirias.
Quem eram
Ativistas antiglobalizao e anarquistas.
Palavra de ordem
"For a democratic globalization" (Por uma globalizao mais democrtica).

TORONTO CONTRA O G20
Em junho de 2010, cerca de 10.000 pessoas participaram de um protesto contra a reunio do G20 (grupo dos principais pases desenvolvidos e emergentes) em Toronto, no Canad. Os manifestantes incendiaram carros de polcia e quebraram vitrines.
O que eles queriam
A manifestao reunia sindicalistas, ambientalistas, estudantes e defensores dos direitos das mulheres, que pediam da retirada dos Estados Unidos do Afeganisto a um futuro melhor para as crianas do mundo. Foi assim at a chegada de um grupo de anarquistas radicais encapuzados, que comeou o tumulto.
Quem eram
Universitrios, sindicalistas, movimentos de esquerda e anarquistas.
Palavras de ordem
"Power, people, power" (Poder, povo, poder) e "Whose streets? Our streets" (De quem so as ruas? So nossas as ruas).

UNIVERSITRIOS EM FRIA
Em novembro e dezembro de 2010, estudantes universitrios realizaram uma srie de protestos na Inglaterra. Em um deles, Charlie Gilmour, filho do milionrio guitarrista da banda Pink Floyd, David Gilmour, e estudante da Universidade de Cambridge, na poca com 21 anos, atacou o carro de seguranas da comitiva do prncipe Charles. 
O que eles queriam
Protestar contra cortes no oramento da Educao e o aumento das taxas escolares.
Quem eram
Estudantes universitrios e anarquistas.
Palavras de ordem
"They say cut back, we say fight back!" (Eles dizem "vamos cortar", ns dizemos "vamos lutar!")
"Free education now" (Educao gratuita j).

WALL STREET OCUPADA
Em 17 de setembro de 2011, manifestantes anticapitalistas montaram barracas de camping, ocupando por quase dois meses o parque Zuccotti, na regio de Wall Street, o distrito financeiro de Nova York, numa manifestao que se autodenominava "Occupy Wall Street".
O que eles queriam
Supostamente inspirados nos movimentos rabes pela democracia, os manifestantes diziam palavras de ordem contra o poder econmico e pela igualdade social, sem definir o que deveria ser feito para atingi-la.
Quem eram
Estudantes, militantes anticapitalismo e cidados comuns.
Palavra de ordem
"We are the 99%" (Ns somos os 99%).

AO E REACO
Os excessos marcaram as aes de manifestantes e policiais, principalmente no Rio de Janeiro e, em So Paulo. Acima, radicais insuflados por parados de esquerda lanam chamas contra policiais paulistas, que reagiram com agressividade (ao lado e abaixo). O resultado foi o maior nmero de detidos em manifestaes desde o fim do regime militar 

Eu NO CONCORDO com a causa do protesto, mas seria ABSURDO ser contra o direito de protestar."

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE ARAGO, FABRCIO LOBEL, JUUA CARVALHO, LAURA MNIZ, LESLIE LEITO, PIETER ZALIS, RAFAEL FOLTRAM E TNIA NOGUEIRA


5. GUSTAVO IOSCHPE  AFINAL, A VERDADE EXISTE?
     H muitos anos, dei uma palestra a professores de uma rede estadual de ensino. Muita gente, ginsio grande. Apresentei a saraivada de dados em que me baseio para estabelecer um diagnstico da educao brasileira. Depois da fala, abriu-se espao para perguntas. Lembro-me da primeira delas como se fosse hoje: "O palestrante que esteve aqui ontem nos advertiu de que nmeros so como palavras: so criaes humanas. E que por trs de toda criao humana existe a intencionalidade da pessoa que a criou. Qual  a sua?". 
 uma viso de mundo preocupante. Fruto do pensamento ps-modernista de vis marxista, postula que no existe uma verdade objetiva, depreendida do estudo de fatos atravs das ferramentas da cincia. O resultado dessa investigao cientfica seria apenas uma verdade, a verso inventada pelo homem branco ocidental para ajud-lo a subjugar os povos subdesenvolvidos e as minorias dos pases ricos. Existem, para os ps-modernistas, "verdades", no plural, ditadas pelas caractersticas histricas, culturais e econmicas de cada pessoa ou grupo. A crena de um aborgine de que um trovo  uma manifestao do descontentamento de uma deidade qualquer tem, portanto, o mesmo grau de verdade da descoberta de que o trovo  causado pela ionizao e pelo aquecimento do ar que envolve um raio, gerando sua rpida expanso e a consequente onda de som.
     Para que seja possvel pensar assim,  preciso ignorar que existem fatos e que nmeros, estatsticas, so apenas descries quantitativas desses fatos. Se eu digo que a populao brasileira em julho de 2012 era de 193 milhes de pessoas, segundo o IBGE, no se pode dizer que eu (ou os coconspiradores do IBGE) estou "criando" esse dado como se criasse um soneto. No, as pessoas existem e esto l! O nmero  apenas a maneira mais simples de comunicar esse fato, sem precisar mostrar fotos de todos os cidados nem repetir a contagem a cada instante. Se entendemos que fatos existem, e se notamos que os fatos corriqueiros do mundo que nos cerca j apresentam uma variedade e uma complexidade inenarrveis  da estrutura atmica e subatmica das partculas ao movimento das mars ou de planetas , ento necessitamos de um mtodo impessoal e objetivo para perceber e compreender esses fatos. Esse mtodo precisa ser peculiar: deve ser feito por seres humanos imperfeitos  com paixes e vilezas, sem viso de raio X nem audio perfeita  para superar as prprias limitaes e chegar o mais prximo possvel de observar o fato real, sem distores ou falhas de interpretao. A criatura precisa superar o criador. Como faz-lo? Perseguindo os fatos de maneira objetiva e tcnica, gerando hipteses sobre o mundo que s podem ser confirmadas atravs da medio. Porque, confiando em um mtodo objetivo e em dados oriundos de medies, os resultados podem ser reproduzidos por diferentes pessoas em diferentes pocas, e as concluses esprias ou os mtodos defeituosos podem ser expostos, corrigidos ou descartados. Sim, esse mtodo a que me refiro  a cincia.
     Os ps-modernistas empenham-se em destruir o edifcio da cincia. No mostrando os erros metodolgicos ou quantitativos dos estudos cientficos, porque a maioria dos adeptos da causa no tem competncia tcnica para isso ("Errar  humanas"), mas simplesmente atacando a credibilidade dos "especialistas". E isso se faz necessrio no apenas porque, sem os guardies do conhecimento embasado em fatos, qualquer Quixote pode descrever moinhos inexistentes que devem ser derrubados, mas tambm porque as investigaes mais recentes de vrias cincias, especialmente a biologia, desconstroem muitas ideias que so caras aos ps-modernistas e marxistas em geral. Entre elas, especialmente aquela de que o ser humano  um bicho fraterno e igualitrio por natureza, e no o ser competitivo e movido pela busca de status e hierarquia em seu grupo social que a psicologia evolutiva no se cansa de demonstrar em estudos e experimentos (sugestes de leitura em twitter.com/gioschpe). Claro, se o fato no existe, o cientista ou especialista s pode ser um impostor, que inventa dados para justificar algum vis inconfessvel. Para os idelogos, toda neutralidade  uma farsa. Quem aponta um erro de um ps-modernista no pode estar certo: necessariamente, deve ser um tarado neoliberal. O marxismo e seus derivativos formam um sistema fechado. Para os crentes, quem aponta seus erros o faz por algum interesse de classe, etnia ou nao e, portanto, pode ser imediatamente descartado. S poder apontar os erros quem for confrade. Mas, obviamente, quem  confrade no percebe os erros. 
     As pessoas dessa inclinao acreditam que a cincia  uma religio, uma f cega. Que os racionalistas apenas trocaram um deus crucificado por outro abstrato: o mtodo cientfico. Mas esse  um engano fundamental e dantesco. Porque a marca da religio (e da ideologia)  justamente o dogma, a ideia inquestionvel e infalsificvel, porque revelada por uma entidade superior. A cincia se move por dvidas, no por certezas: tudo  questionvel e precisa ser demonstrado e reproduzido. No h crena em entidades superiores. Pelo contrrio: a cincia moderna se faz pela sobreposio de vrios e pequenos esforos. At que uma teoria ganhe respeitabilidade e passe a ser aceita como uma boa descrio dos fatos, precisa ser replicada por muitos pesquisadores, que podem estar espalhados por todo o planeta.  sempre assim que funciona? Claro que no. Quem conhece a histria das ideias sabe que cientistas e pesquisadores sofrem dos mesmos vcios da humanidade em geral. So seduzidos pelo poder poltico e econmico, sucumbem a ideologias, aferram-se a teorias patentemente equivocadas por questes pessoais ou at mesmo estticas. Mas, por mais que ideias tortas tenham vida longa, algum dia elas no resistem ao acmulo de evidncias contrrias e morrem, vo para o lixo da histria, substitudas por formulaes mais corretas. 
     Algumas pessoas acham que no se pode confiar na cincia porque "uma hora eles dizem uma coisa, outra hora dizem outra". Mas isso  causado mais por um vis da publicao dos resultados do que pelos resultados em si.  mais culpa da imprensa (leiga e acadmica) do que de pesquisadores:  a velha histria de que quando um homem morde um cachorro  notcia, mas no vice-versa. Os resultados mais divulgados so frequentemente os mais destoantes do senso comum e da pesquisa anterior.  bom que sejam publicados, porque arejam o debate, mas na maioria dos casos acabam sendo a exceo que comprova a regra. No  verdade que o processo cientfico  um eterno pingue-pongue de verses antagnicas. O conhecimento avana, chegamos a consensos. Dificilmente se ver algum estudo srio sugerindo que fumar faz bem  sade.  verdade que os consensos no so perenes e que talvez vamos propor aes equivocadas por base-las em pesquisas que depois se descobriro equivocadas. Mas no mundo real sabemos que a perfeio  inatingvel. A questo, portanto, no  acabar com o erro, pois isso  impossvel, mas minimiz-lo. E certamente uma ao baseada em evidncias slidas vai errar menos do que aquela inspirada em intuies e inclinaes pessoais. 
     Que pessoas ignorantes repitam essa linha do "cada um com a sua verdade"  at compreensvel, saturados que estamos, aqui nos tristes trpicos, de gente que compartilha essa cosmoviso. Na terra da cordialidade, pega mal defender a existncia de uma verdade e o consequente erro daqueles que defendem seu oposto. Parece at arrogncia. Que professores pensem assim j  mais triste e preocupante, pois uma tarefa fundamental do sistema escolar  transmitir ao alunado  o conhecimento acumulado ao longo de sculos de trabalho rduo de pesquisadores e pensadores, que muitas vezes perderam a vida defendendo suas ideias "hereges". Tambm so os professores que deveriam propagar o mtodo cientfico, para que seus alunos possam empreender o mesmo caminho da busca da verdade trilhado pelos gigantes intelectuais que nos precederam. 
     Mas que lderes pblicos pensem assim, e ajam ao arrepio daquilo que a pesquisa j estabeleceu, a no  apenas triste ou lamentvel:  criminoso. Na rea da educao posso dizer com tranquilidade: a maioria dos nossos gestores pblicos despreza totalmente os milhares de estudos objetivos sobre o que funciona em educao. Insistem em gastar fortunas com ideias que a experincia, documentada em estudos rigorosos, j se encarregou de demonstrar serem incuas. O Ministrio da Educao agora cria um "Programa Nacional de Alfabetizao na Idade Certa" que quer alfabetizar na idade errada (8 anos, em vez de 6) e defende um aumento radical do financiamento em educao que no ter nenhum impacto na melhora da qualidade do ensino (em breve escreverei artigo a respeito). Prefeituras insistem em alfabetizar com o mtodo construtivista, quando o fnico tem se mostrado mais eficaz. Em diminuir o nmero de alunos em sala de aula ou colocar dois mestres por turma, o que no d resultado. Em carregar nas ferramentas tecnolgicas que no tm comprovao alguma, sem nem ao menos fazer uma escolha criteriosa do livro didtico ou prescrever o bom e velho dever de casa, ambos com custo perto de zero e eficcia comprovada. 
     Muitos o fazem por desconhecimento e preguia, outros por convenincias polticas, outros ainda por motivos inconfessveis (no h fornecedor de dever de casa para dar uma mozinha no financiamento da prxima campanha...). Mas, no frigir dos ovos, eles s podem se safar de sua irresponsabilidade porque sabem que grande parte dos eleitores est convencida de que fatos so criados de acordo com a intencionalidade de cada um e que, portanto, vontades so mais importantes do que resultados e que as boas intenes dos inventores de factoides compensam o divrcio entre seus objetivos e suas realizaes. Mas os dados existem. A verdade existe. E at os ps-modernistas mostram saber disso. Cada vez que tomam um remdio ou visitam um mdico para tratar de uma doena, em vez de consumir uma beberagem prescrita por um paj, esto dando s prprias ideias a credibilidade que merecem. Ignoramos esses dados, e os muitos recados que nos mandam, por nossa conta e risco. Pases no morrem nem vo  falncia por teimar em ignorar a realidade. Mas podem estagnar ou retroceder, como mostra a histria recente de alguns de nossos vizinhos. Se no acordarmos para a realidade, em breve haveremos de fazer-lhes companhia. 
     
     P.S.: Thomas Jefferson, um dos founding fathers dos EUA, escreveu que "onde a imprensa  livre, e todo homem capaz de ler, tudo est seguro". Roberto Civita lutou para que cumprssemos essas duas misses por toda a sua vida adulta. O Brasil perdeu um grande homem, mas o legado fica. Em boas mos: a existncia desta coluna, que irrita a tantos h anos, s  possvel em uma organizao que preza a verdade antes de agradar a leitores ou poderosos.


6. SOCIEDADE  EU QUERO SER BOBԔ
Se no houver imprevisto em 2014, Paris ter uma prefeita pela primeira vez. A competio pelo cargo passa pela disputa de quem faz mais o estilo bourgeois-bohme.
MRIO SABINO, DE PARIS

     Nem gache caviar, nem droite bling-bling. Traduzindo: nada de esquerda que adora falar de pobre da perspectiva de um prato de ovas de esturjo (comece com vinho branco, depois engate um champanhe); nada de direita exibicionista de jias de desenho animado e relojes como aquele que o ex-presidente Nicolas Sarkozy tirou do pulso ao cumprimentar eleitores na ltima campanha presidencial (nunca se sabe do que essa gente  capaz...). As duas principais candidatas  prefeitura de Paris, nas eleies de maro de 2014, a socialista Anne Hidalgo e a conservadora Nathalie Kosciusko-Morizet, doravante NKM, j se digladiam. No para apresentar-se como a melhor opo a uma cidade que perde a competio com a rival Londres ao posto de metrpole global da Europa. Ambas disputam a imagem de bobo mais bem-acabada  pronuncia-se "bob", ou bourgeois-bohme, burgus-bomio, em portugus. H tambm aquela novidade sociolgica tediosa de discorrer a respeito: a confirmar-se o favoritismo de uma ou outra, ser a primeira vez que a capital francesa ter uma mulher ao volante. 
     O que  exatamente um "bob"? O cidado que ganha somas para l de capitalistas (o lado burgus, evidentemente), embora goste de mostrar,  la esquerda, que menos  mais (o lado bomio, porque no deixa de ser uma forma de dissoluo). Alm de discrio nas roupas e acessrios que s parecem baratos, a categoria inclui outro item de primeira necessidade: aquele amigo artista ou inteleca sem condio de morar no miolo de Paris, onde os preos dos apartamentos foram inflados pelos "bobs", hoje espcie dominante na demografia da cidade. Anne Hidalgo, de 54 anos, especialista em direito social e sindical (aborrecido...), autora de obras engajadas (chato...), , salta aos olhos, mais bomia do que burguesa, e NKM  a "Maria Antonieta"   mais burguesa do que bomia. Com feies pr-rafaelitas (os jornais insistem), 40 anos e corpinho de 39, gosta de vestir-se como rica ao jeito antigo, em desacordo com o manual da parisiense modernamente elegante, elegantemente moderna (no plano ideal, jeans Current Elliott, sapatilhas Repetto ou botinhas Ash, palet e blusa Sandro, bolsa Zadig & Voltaire). Defeitos  vista, as duas correram para a maquiagem. 
     Anne Hidalgo, vice do prefeito Bertrand Delanoe, abriu a sua casa no XV Arrondissement (Gare de Montparnasse) para a revista Paris Match. Numa das fotos, aparece fazendo uma mille-feuille. Frase: "Eu gosto de trabalhar, mas tambm de ser bonita. Sou uma parisiense e bonne-vivante''. Ser uma parisiense  principalmente um estado de esprito, visto que Anne Hidalgo nasceu na Espanha. NKM, deputada com QG no VII Arrondissement (entre os Invalides e Saint-Germain, metro quadrado de 20.000 euros), deu o troco. Ela anunciou a sua candidatura em frente a uma estante cheia de livros. No aqueles ocos, de cenrio de novela brasileira. Ela saiu do cofre para apoiar o casamento gay, em oposio s outras "sarkozettes" do UMP (sigla de "Unio por um Movimento Popular), todas em sintonia com a direita da direita do partido. E se esquea o inesquecvel: NKM foi ministra da ecologia de uma administrao que adorava os carros que os bobs querem abolir. Ter prestado servio militar como engenheira no africano Djibuti? Fardas no entram no figurino bourgeois-bohme. Ser uma parisiense  tambm um estado de esprito, mesmo para uma parisiense da gema. 
     At o momento, a candidata socialista leva vantagem nas pesquisas, inclusive territorial. A eleio, aqui,  indireta. Ganha no quem angariar necessariamente mais votos absolutos, e sim quem obtiver a maioria dos conselheiros de cada um dos vinte arrondissements, ou bairros. Eles compem o Conselho de Paris, encarregado de eleger o prefeito. Como o nmero de conselheiros , em vrios arrondissements, desproporcional, para cima ou para baixo, ao nmero dos seus habitantes, pode acontecer de o partido vencedor nos sufrgios totais perder na representao por bairro. Os socialistas esto sedimentados em mais bairros estratgicos do que os concorrentes. 
     Paris tem um prefeito gay, porm jamais contou com uma mulher na direo. Seria uma bastilha do machismo francs prestes a cair? VEJA fez a pergunta a Rachida Dati, ex-ministra da Justia de Sarkozy, que desistiu de concorrer nas primrias da UMP contra NKM. "Machismo... Mesmo nos pases escandinavos, h legislao para garantir os direitos das mulheres", disse ela, surpresa com a questo. "Ora, se h necessidade de lei,  porque no existe igualdade plena. Eu diria que a Franca est no meio do caminho no terreno da afirmao feminina." Rachida Dati d as cartas no VII Arrondissement, como subprefeita. A poderosa era bling-bling at pouco tempo atrs. Quando achou que podia tomar o lugar de NKM, comeou a fazer o estilo "bob". Bilionrios da Frana (e, parece, um rabe) entraram em pnico quando ela anunciou que estava grvida. Ningum sabia quem era o pai da sua filha nascida em 2009, at que no ano passado Rachida Dati entrou na Justia com um pedido de reconhecimento de paternidade. O garanho em questo  Dominique Desseigne, presidente do grupo Lucien Barrire, gigante do ramo hoteleiro. Ela aderiu ao "bob", mas de boba no tem nada. Nem Anne Hidalgo. Nem NKM.


7. SADE  A LUTA CONTINUA
As superbactrias no sairo vitoriosas na guerra contra os antibiticos. Mas a resistncia atvica desses microrganismos nocivos aos remdios obrigou as agncias de sade a abrir os cofres para novas pesquisas.
ADRIANA DIAS LOPES

     De cada 100 pacientes internados hoje em unidade de terapia intensiva (UTI), dez esto contaminados por uma bactria associada ao tratamento mdico  independentemente da causa da hospitalizao. Dois deles, indicam as estatsticas, no reagiro a contento aos antibiticos; um dos pacientes passar o resto da vida sofrendo com sucessivas infeces e o outro morrer em at trs meses a partir da internao. O cenrio, sombrio,  uma das situaes mais emblemticas da medicina moderna. H apenas dez anos, as bactrias resistentes aos medicamentos acometiam metade desse total de vtimas. A humanidade, portanto, est sendo derrotada por esses microrganismos de, em mdia, 0,001 milmetro? No, estamos longe de perder a guerra para as superbactrias. Mas, sim, elas esto mais resistentes e os antibiticos, nessa batalha biolgica darwiniana, lutam para derrotar os inimigos que sobreviveram, por serem mais fortes. 
     Desde a dcada de 50, os infectologistas se vem s voltas com as primeiras bactrias indiferentes  ao dos remdios  na ocasio, os filhotes (cepas, no jargo mdico) eram do Staphylococcus aureus, associado a infeces respiratrias e cutneas. Essas bactrias eram resistentes ao primeiro antibitico, descoberto em 1928 pelo bacteriologista escocs Alexander Fleming (1881-1955)  a penicilina. De l para c, tem sido assim. Quando um antibitico chega ao mercado,  capaz de matar a quase totalidade dos germes contra os quais foi desenvolvido. Com o tempo, no entanto, a medicao perde a fora. Atualmente poucos antibiticos apresentam eficcia superior a 70% (veja o quadro nas pgs. 104 e 105). 
     H um ms, a diretora-mdica do departamento de sade do Reino Unido, Dame Sally Davies, fez o alerta: "Se nada for feito, existe o risco de as operaes de rotina se tomarem mortais em apenas vinte anos". O governo dos Estados Unidos lanou uma srie de medidas para estimular a indstria farmacutica. A campanha pretende investir 200 milhes de dlares na criao de uma dezena de antibiticos at 2020. Na Europa, parcerias pblico-privadas comearam a ser feitas com o mesmo objetivo. Do ponto de vista financeiro, os antibiticos j no representam um grande negcio para os laboratrios. " um investimento de retorno incerto, ao contrrio do que ocorre em relao aos medicamentos de doenas crnicas", diz Paulo Miranda, diretor mdico da empresa AstraZeneca, que trabalha no desenvolvimento de novos antibiticos. Na maioria dos casos, trata-se de uma medicao usada por pouco mais de uma semana.  uma situao muito diferente da que acontece com remdios para diabetes, colesterol alto ou hipertenso, que devem ser tomados por longos perodos, se no para o resto da vida. 
     O grande trunfo das bactrias na guerra contra os seres humanos  a sua surpreendente capacidade de adaptao aos mais diversos (e adversos) ambientes. Hoje, um germe fica resistente a um antibitico dois anos depois de seu lanamento. Na dcada de 60, eram necessrios cinco anos para que o mesmo ocorresse. Ao entrar em contato com um antibitico, o microrganismo cria protenas que minimizam ou anulam o efeito do medicamento. Como uma herana de pais para filhos, essas protenas so transmitidas para as novas cepas de bactrias. Ou seja, os filhotes j nascem com a resistncia aos antibiticos. A explicao para esse mecanismo  puro evolucionismo, que leva  sobrevivncia dos mais aptos. No ano passado, uma equipe de pesquisadores da Universidade McMaster, do Canad, e da Universidade de Akron, nos EUA, recolheu amostras de bactrias em uma caverna isolada h 4 milhes de anos em Lechuguilla, no Novo Mxico. Depois de mistur-las a 26 antibiticos, os cientistas constataram que a maioria das 93 cepas testadas apresentou mecanismos de resistncia no primeiro contato com os medicamentos. "Esse estudo comprova a habilidade inata e imediata de sobrevivncia desses microrganismos", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Edmundo Vasconcelos, em So Paulo. As cepas bacterianas surgidas na ltima dcada apresentam uma caracterstica adaptativa ainda mais impressionante. Alm de transmitirem o dom da resistncia a seus descendentes, elas enviam um trecho de seu material gentico com essa informao a bactrias vizinhas  sejam elas da espcie que forem. Umas das mais preocupantes  a KPC, um microrganismo natural dos intestinos. Ela  capaz de produzir uma enzima que adere ao material dos cateteres, impedindo assim a ao do antibitico. 
     E por que as bactrias to facilmente se tornam resistentes  medicao? A explicao mais uma vez est na teoria da evoluo das espcies. As bactrias so imprescindveis ao bom funcionamento do organismo. Elas esto envolvidas nos mais diversos processos  dos movimentos peristlticos  sntese de vitaminas, da integridade da pele  conservao do sistema imunolgico. Em excesso ou fora de seu habitat, em um organismo debilitado, elas causam doenas. As superbactrias sempre nascem nos hospitais. Elas podem escapar desse ambiente pela contaminao dos profissionais de sade e visitantes, sobretudo por meio de mos mal lavadas. Segundo o Centro de Controle de Doenas, o prestigioso CDC dos Estados Unidos, 1% dos americanos carregam colnias da superbactria MRSA, filhote do Staphylococcus aureus. Apesar de infectadas, essas pessoas no ficam doentes porque suas defesas esto em ordem.

AS MAIS PERIGOSAS
As bactrias tm alguma ao benfica no organismo. Elas se tornam nocivas quando, em um organismo imunologicamente debilitado, comeam a se multiplicar acelerada e desordenadamente ou quando caem na corrente sangunea e passam a infectar outros rgos que no os seus de origem. Alm disso, algumas se tornam resistentes aos antibiticos. A seguir, as dez superbactrias que mais preocupam os mdicos, e seus riscos.

Bacteroides e clostridium  infeces intestinais.
Enterococcus  Infeces no trato urinrio e nas vlvulas cardacas.
Escherichia coli (E. coli)  Infeces intestinais e urinrias.
Klebsiella pseumoniae (KPC)  Pneumonia e infeco no trato urinrio.
Pneumococo  Pneumonia.
Proteus  Infeces intestinais e urinrias.
Pseudomonas  Infeces pulmonares, intestinais e urinrias.
Staphylococcus aureus -  Infeces cutneas e respiratrias.
Streptococcus  Infeces respiratrias.
Treponema pallidum  Sfilis.

A HISTRIA DA RESISTNCIA
As principais classes de antibiticos desenvolvidas ao longo de quase um sculo - quanto maior o tempo de utilizao, maior o ndice de resistncia das infeces bacterianas aos medicamentos.
Fontes: Universidade de Durham, na Inglaterra, e Artur Timerman, infectologista.

ANO: 1930
CLASSE DE ANTIBITICOS: Betalactmico (1 gerao)
MECANISMO DE AO:  a penicilina. Interfere na integridade da parede da bactria.
BACTRIAS-ALVO: Staphylococcus, Streptococcus e Treponema pallidum.
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 2% (treponema palladium). 90% (as outras)

ANO: 1940
CLASSE DE ANTIBITICOS: Sulfonamida
MECANISMO DE AO: Interfere na formao do DNA dos novos germes.
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo, Staphylococcus, Enterococcus e Klebsiella
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 80%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Aminoglicosdeo
MECANISMO DE AO: Entra na bactria, impedindo a sntese de protenas que participam da multiplicao do germe.
BACTRIAS-ALVO: Klebsiella, Pseudomonas, Escherichia coli e micobactrias.
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 40%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Tetraciclina (1 gerao)
MECANISMO DE AO: Impede a sntese de protenas da bactria.
BACTRIAS-ALVO: Echerichia coli, Proteus e Klebsiella
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 90%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Lincosamina
MECANISMO DE AO: Inibe a sntese de protenas responsveis pela integridade da membrana da bactria.
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo, Enterococcus, Staphylococcus e Bacteroides
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 2% (Bacteroides). 70% (as outras)

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Macroldeo (1 gerao)
MECANISMO DE AO: Interfere na produo de protenas
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo, Enterococcus e Staphylococcus
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 90%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Glicopeptdeo
MECANISMO DE AO: Impede a formao da parede das bactrias durante a sua multiplicao
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo, Enterococcus e Staphylococcus
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 30%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Polipeptdeo
MECANISMO DE AO: Age na membrana da bactria, de forma a retirar clcio e magnsio, compostos necessrios  vida do germe.
BACTRIAS-ALVO: escherichia coli, Pseudomonas e Klebsiella
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 30%

ANO: 1950
CLASSE DE ANTIBITICOS: Rifampicina
MECANISMO DE AO: Interfere no material gentico da bactria.
BACTRIAS-ALVO: Mycobacterium tuberculosis
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 5%

ANO: 1960
CLASSE DE ANTIBITICOS: Nitroimidazlico
MECANISMO DE AO: Os remdios entram na bactria, liberando compostos txicos, que inativam o DNA do germe.
BACTRIAS-ALVO: Bacteroides e Clostridium
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 10%

ANO: 1960
CLASSE DE ANTIBITICOS: Betalactmico (2 gerao)
MECANISMO DE AO: Interfere na integridade da parede da bactria
BACTRIAS-ALVO: Pseudomonas, Escherichia coli, Klebsiella e Proteus
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 90%

ANO: 1960
CLASSE DE ANTIBITICOS: Quinolona (1 gerao)
MECANISMO DE AO: Impede a acomodao do DNA no interior da bactria, inibindo a multiplicao do germe.
BACTRIAS-ALVO: Proteus, Klebsiella, Pseudomonas e Escherichia coli, apenas no trato urinrio
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 80%

ANO: 1970
CLASSE DE ANTIBITICOS: Trimetoprima
MECANISMO DE AO: Inibe a sntese de uma enzima que participa da formao do DNA
BACTRIAS-ALVO: Klebsiella, Escherichia coli e Proteus
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 80%

ANO: 1980
CLASSE DE ANTIBITICOS: Quinolona (2 gerao)
MECANISMO DE AO: Impede a acomodao do DNA no interior da bactria, evitando a multiplicao do germe.
BACTRIAS-ALVO: Proteus, Klebsiella, Pseudomonas e escherichia coli, em todo o organismo
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 70%

ANO: 1990
CLASSE DE ANTIBITICOS: Mupirocina
MECANISMO DE AO: De uso tpico, inibe a multiplicao da bactria, ligando-se a uma enzima que forma a parede das bactrias
BACTRIAS-ALVO: Age contra os principais germes
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 80%

ANO: 2000
CLASSE DE ANTIBITICOS: Oxazolidinona
MECANISMO DE AO: Interrompe a multiplicao das bactrias, danificando suas protenas
BACTRIAS-ALVO: Staphylococcus, Enterococcus e Pneumococo
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 30%

ANO: 2000
CLASSE DE ANTIBITICOS: Quinolona (3 gerao)
MECANISMO DE AO: Impede a acomodao do DNA no interior da bactria, evitando a multiplicao do microrganismo
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo, Enterococcus e Staphylococcus
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 30%

ANO: 2000
CLASSE DE ANTIBITICOS: Betalactmico (3 gerao)
MECANISMO DE AO: Interfere na integridade da parede da bactria.
BACTRIAS-ALVO: age contra os principais germes
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 20%

ANO: 2000
CLASSE DE ANTIBITICOS: Tetraciclina (2 gerao)
MECANISMO DE AO: Impede a sntese de protenas da bactria
BACTRIAS-ALVO: Staphylococcus, Enterococcus e Pneumococo
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 40%

ANO: 2000
CLASSE DE ANTIBITICOS: Macroldeo (2 gerao)
MECANISMO DE AO: Inibe a sntese de uma protena fabricada pela bactria.
BACTRIAS-ALVO: Pneumococo
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 50%

ANO: 2010
CLASSE DE ANTIBITICOS: Lipopeptdeo
MECANISMO DE AO: Liga-se  membrana, interferindo na sua carga eltrica. Assim o DNA deixa de ser sintetizado e a bactria morre
BACTRIAS-ALVO: Escherichia coli, Proteus e Klebsiella
RESISTNCIA AOS ANTIBITICOS: 5%


8. PATRIMNIO  AT PARECE MILAGRE
Sobreviventes a sculos de intensa urbanizao, as igrejas do Rio que compem o roteiro da Jornada Mundial da Juventude abrigam jias do barroco e contam a histria do Brasil.
GABRIELE JIMENEZ

     At o incio do sculo XX, um conjunto de torres longilneas sobressaa no carto-postal do centro do Rio de Janeiro em meio a um casario de altura acanhada. Eram o smbolo-mor da proeminncia das igrejas que arrematavam majestosamente. Em algumas dessas igrejas repousam at hoje verdadeiras obras-primas da arte sacra, exemplares que passeiam do barroco ao rococ, to em voga na poca de sua construo. Atualmente engolidas pelos arranha-cus que as circundam, muitas delas so pouco conhecidas e menos ainda visitadas. Mas isso deve mudar: depois de dcadas, tal tesouro vir  luz sob os holofotes da Jornada Mundial da Juventude, em julho, quando integrar um circuito de 32 igrejas que pontilham o caminho entre o centro do Rio e Niteri. Alm de um alentado catlogo com fotos e textos sobre cada uma, haver um grupo de especialistas de prontido por todo o trajeto para remontar a histria dos templos da f em torno dos quais tudo girava  de festas religiosas e procisses a grandes manifestaes artsticas e suntuosos casamentos reais. Diz a historiadora Myriam Ribeiro, uma das maiores especialistas em barroco brasileiro: "O Rio tem at mais igrejas nesse estilo que Ouro Preto, mas, apesar de sua relevncia para a arte e a histria, elas foram ficando em segundo plano". 
     O ponto alto do roteiro, circunscrito s construes dos sculos XVII e XVIII,  a Igreja da Ordem Terceira de So Francisco da Penitncia, colocada de p a mando de um grupo de ricos comerciantes ligados  ordem, em 1657. Seu interior s ficou pronto quase um sculo mais tarde e, embora poucos saibam,   uma espcie de pedra fundamental do estilo tomado de curvas, adornos e ouro  vontade que viria a encontrar seu apogeu nas mos de Aleijadinho. Trata-se de obra dos trs mais importantes artistas portugueses da poca  o entalhador Manuel de Brito, o pintor Caetano da Costa Coelho e o mestre escultor Francisco Xavier de Brito, que se mudou depois para Minas Gerais e ali atraiu a ateno de Aleijadinho e seus pares. Quem divisa a fachada branca emoldurada por mrmore sbrio espanta-se com o interior todo coberto de madeira talhada e banhada em ouro, estrutura coroada por uma cpula que d a sensao de estar assistindo  prpria glorificao de So Francisco. Um milagre da perspectiva obtido por meio de uma tcnica de iluso de tica at ento indita no Brasil, a trompe l'oeil (engano dos olhos, em francs), j conhecida de gregos e romanos e apurada pelos renascentistas. 
     O circuito sugerido traz ainda  tona mostras da cultura daqueles tempos em que a corte portuguesa imprimia seus costumes  capital do Imprio. Na Penitncia, assim como no Mosteiro de So Bento, que tambm est no roteiro,  possvel ainda discernir os nomes nas lpides dos benfeitores que compravam o direito de ser enterrados em solo sagrado com suas doaes. Nada resta sob as lpides, porm: em 1825, Pedro I proibiu a prtica do enterro nos templos por consider-la anti-higinica, e ordenou que os restos mortais, mesmo dos mais nobres, fossem transferidos para o cemitrio. Na mesma vizinhana, a ampla e ricamente adornada Carmo da Antiga S  cenrio da coroao de dom Pedro I e dom Pedro II e do casamento da princesa Isabel com o conde d'Eu  foi escolhida para ser a capela real no s por sua proximidade do Pao Imperial, a sede do poder, mas tambm porque a catedral de ento havia sido fundada por escravos, algo inconcebvel para o templo de um rei. A capela chegou a ter uma passarela elevada e fechada que permitia a dom Joo VI acess-la sem ter de enfrentar o escrutnio dos populares que lotavam a regio mais movimentada da cidade. A passagem desapareceu sem deixar vestgios, mas as tribunas da famlia real ainda esto l, fechadas por cortinas vermelhas, testemunhas de um perodo em que a posio dos fiis na missa era definida segundo o status. A aristocracia ficava num patamar mais alto; abaixo, vinha a plebe  as mulheres sentadas no cho e os homens de p. 
     Os escravos podiam assistir s celebraes com o rei presente, mas sem passar da porta, e por isso muitos preferiam rezar em frente a um dos mais de setenta oratrios pblicos espalhados pela cidade. Um desses altares, erguido na ento Travessa do Comrcio (hoje Rua do Ouvidor), deu origem  Igreja da Lapa dos Mercadores, pequena e preciosa amostra do rococ, gnero menos rebuscado e mais delicado que surgiu como reao ao exagero do barroco. Ela fica escondida em uma rua estreita, espremida entre antigas casas comerciais. O fato de uma imagem exposta na torre do sino ter despencado de uma altura de 25 metros durante um bombardeio na segunda Revolta da Armada, em 1893, e ter sobrevivido quase intacta alimentou a mstica de que ocorrera no local um milagre. Com o bota-abaixo de um sem-nmero de velhas construes na rea, no deixa de ser um milagre que a prpria igrejinha continue ali, pronta para ser apreciada pelos visitantes  peregrinos ou no.


